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Quem são e como vivem as maiores figuras drag queens de Alagoas
Por: Gazetaweb - Daniel Dabasi

Pântala, Paty e Melissa, as drag queens que dominam o mercado alagoano)
Plumas e paetês. Perucas e purpurinas. Salto alto e cinta-liga. Na nécessaire, as maquiagens em tons gritantes de vermelho, rosa, azul e laranja ganham força. O rosto e o corpo, aos poucos, perdem a masculinidade e se transformam na exuberante aparência feminina. Pronto. Abram alas, pois lá vêm elas, as rainhas da noite, as deusas da madrugada.
No alto de suas plataformas, as drag queens foram além do movimento ‘drag’ dos anos de 1960 e passaram a usar as personagens como um meio de vida. Com irreverência e muito humor, elas se tornaram figuras garantidas em grandes eventos alagoanos. Com histórico carregado de muito preconceito e discriminação, muitas conseguiram dar a volta por cima e criaram um meio alternativo de ganhar dinheiro no competitivo mercado de trabalho em Alagoas. Mas, afinal, quem está por trás da maquiagem daqueles que animam as festas alagoanas? Como surgiram e como vivem as drag queens? Prepare-se agora para mergulhar no universo das ‘divas’ da noite.
Os homens vestem-se de mulher desde a época do teatro elisabetano, entre os séculos XVI e XVII, quando as mulheres não podiam participar dos espetáculos teatrais como atrizes. Então, o ator, para representar papéis femininos, exagerava nas maquiagens e nos figurinos, ao tempo em que assumia um tom afeminado na voz. De lá para cá, muita coisa mudou. As mulheres invadiram os palcos e ganharam seu espaço sob a luz dos holofotes. Os homens, entretanto, continuaram a se vestir como elas e passaram a usar o termo drag queen numa espécie de movimento contracultura que surgiu para manifestar repúdio à não-aceitação homossexual e para exaltar a mulher.
Hoje, longe do sentido subversivo ou revolucionário, drag queen se tornou uma profissão. Com suas agendas lotadas de formaturas, casamentos, festas para debutantes e os mais diversos eventos, elas se profissionalizaram e ganharam até mesmo um curso voltado para formação de drag queens, na primeira ‘escola gay’ do país, em Campinas, São Paulo.
Pierre Pellegrine é Pântala Butterfly - Show de irreverência

Antes e depois de Pierre Pellegrine (Foto: Arquivo Pessoal)
O nome dele é Pierre Pellegrinne. Aos 29 anos, o maceioense é formado em publicidade e propaganda, mas é na pele de Pântala Butterfly que encontrou sua principal fonte de renda. Com sua gargalhada marcante e engraçada, Pântala se tornou figurinha carimbada nos principais eventos alagoanos. Mas nem tudo são flores na vida dessa drag que conquistou fãs e espaço no mercado de trabalho. Para assumir o papel, ele conta que tem de enfrentar bastante preconceito. “Como em qualquer área, a gente passa por problemas. Nessa, temos que encarar o preconceito. Por ser um trabalho artístico, muitas pessoas pensam que somos preguiçosos. Outra dificuldade que encontramos é nos relacionamentos. Muita gente confunde e acha que somos daquele jeito 24 horas. Outros pensam que somos mulheres, prostitutas, viciados, mas não é nada disso, eu sou bem tranquilo, levo uma vida normal”, conta.
Em entrevista ao portal Gazetaweb, Pellegrine narrou como se tornou um artista da noite e como foram os primeiros passos percorridos. “Tudo começou quando fui morar em São Paulo. Lá, fui vizinho do ex-BBB Dicésar, que há muitos anos interpreta uma personagem chamada Dimmy Kieer. Com ele, aprendi vários truques de maquiagem, lugares onde se compra os melhores adereços, enfim. Quando voltei para Maceió, coincidentemente, um amigo chamado Robson estava iniciando a carreira como Paty Maionese. (Veja a história de Robson Barros logo após). Comecei, então, a ajudá-lo na produção e maquiagem. Depois segui para Recife, onde morei por um tempo. Ao trabalhar como recreador num hotel em Porto de Galinhas, surgiu a necessidade de animar uma festa para os hóspedes e pediram para que eu me vestisse de mulher. Pronto. De lá pra cá não parei".
Hoje, sua personagem é a principal responsável pelo pagamento do aluguel, do condomínio, da água, da luz, do telefone e da internet. “No começo foi difícil porque precisei investir muito em figurinos, maquiagens, adereços, mas hoje pago minha aposentadoria e levo como uma profissão. No mês de dezembro são tantos eventos que mal conseguimos atender à demanda”, revela Pellegrinne, que já planeja comprar um carro.

Pântala Butterly(Foto: Arquivo Pessoal)
Antes e depois de Robson Barros (Foto: Arquivo Pessoal)

Ele saiu do município de São Miguel dos Campos, distante 60 quilômetros de Maceió, na tentativa de realizar um sonho: fazer teatro. Entretanto, Robson Barros deixou a fantasia de lado para traçar o próprio destino. Criou a personagem Paty Maionese e se transformou na maior referência drag queen em Alagoas.
“No princípio, vim do interior para estudar teatro, mas eu tive que adiar essa vontade diante da dificuldade em viver dessa arte em Alagoas. Então, eu fui obrigado a procurar alguma coisa pra me profissionalizar e que me oferecesse algum sustento. Com isso, surgiu uma oportunidade de trabalhar com carteira assinada numa empresa de eventos. Fui. Um belo dia, uma amiga me chamou para animar um chá de bebê. Coloquei uma peruca, um salto, uma roupa. De lá, começaram a surgir vários convites. Percebi, com isso, que havia grande necessidade no mercado e decidi aproveitar minha teatralidade assumindo o personagem profissionalmente. No início, tive que abandonar o emprego formal porque estava muito difícil conciliar a agenda, mas como sou uma pessoa inquieta, voltei a trabalhar em uma empresa com carteira assinada”, conta.
Distante dos cílios, do blush e do batom, Robson Barros revela que o maior preconceito emerge do próprio mundo GLS. Ele disse que sua mãe e seus irmãos, no começo, estranharam muito, mas que hoje dão até palpites nos figurinos e que a Paty Maionese se tornou no maior orgulho da família.
“Quando fazemos algo com amor, com dignidade, ganhamos o respeito das pessoas. Nunca percebi nenhum tipo de preconceito nas festas que frequento, é mais fácil encontrar reações adversas entre os gays”, revela.
Barros, assim como seu amigo Pellegrine, usa o dinheiro que recebe como Paty Maionese para pagar sua aposentadoria. “Procuro sempre dividir o dinheiro. O que ganho como Robson fica comigo, já o que ganho como Paty, parte vai para investimentos para ela. Sem dúvida, ganho mais com minha personagem. Uma das primeiras coisas que fiz quando comecei a ganhar dinheiro foi tirar meu nome do SPC e hoje já vivo tranquilo”, diverte-se.

Paty Maionese(Foto: Arquivo Pessoal)
Leandro Alves é Melissa Vogue - Top drag

Antes e depois de Leandro Alves (Foto: Arquivo Pessoal)
Quem vê o professor de educação física Leandro Alves, de 24 anos, não imagina que ele assume uma das personagens mais conhecidas do universo GLS em Alagoas: Melissa Vogue. O alagoano começou a trabalhar profissionalmente como drag queen ainda cedo, quando tinha apenas 19 anos. “Sempre fui muito envolvido no lado artístico. Nos eventos da escola, fui muito engajado em atividades artísticas, mas só resolvi criar a personagem quando vi a Paty Maionese e outra drag chamada Laysa Bombom. Elas foram minha inspiração”, conta.
O começo para Leandro pareceu mais tranquilo. A família, segundo ele, resistiu um pouco, mas acabou aceitando numa boa, sem grandes complicações. “Antigamente o preconceito era maior, mas atualmente as pessoas têm a cabeça mais aberta".
Ao contrário dos colegas, a principal fonte de renda de Leandro não parte da personagem. Seu dinheiro vem de sua profissão como educador físico e maquiador. “E eu moro com minha família, isso ajuda".
Ele intitula Melissa Vogue como top drag e explica: “No meio drag existem vários ramos, a exemplo da drag caricata e a top drag. A primeira é o exagero da mulher, já a segunda se aproxima mais dela, buscando traços e comportamento mais modernizados e delicados”.
Mesmo assim, Leandro ressalta que Melissa é uma drag multiuso. “Faço festas para público gay, hetero, enfim. Não dá para ganhar muito dinheiro, mas dá para viver no truque. Embora a gente receba mais com festas voltadas para heterossexuais, o público GLS é mais atencioso, tornam-se fãs, querem chegar perto, tirar fotos”, conta.

Melissa Vogue(Foto: Arquivo Pessoal)
A identidade Drag Queen
Pierre, Robson, Leandro. Jovens que buscam se distanciar de si mesmos para assumir identidades criadas e recriadas a cada nova transformação, ao tempo em que se redescobrem. Nesse jogo de identidades regido pela metamorfose, eles passam pelo processo de socialização como forma de se relacionar e encarar o mundo.
‘Batendo’ suas perucas, as drag queens ultrapassam a ideia de gênero masculino/feminino, e com todo o seu aparato, demonstram a diversidade dos seres, a dicotomia da identidade sexual e sobrevivem, com irreverência e muito brilho, no mundo, onde a sociedade cada vez mais se fragmenta, com cada um buscando a sua ‘tribo’.