VIOLÊNCIA CONTRA HOMOSSEXUAIS


O seguinte artigo de Drauzio Varella foi publicado na sua coluna da
“Ilustrada”, da Folha de São Paulo, no sábado, 4 de dezembro passado.

A HOMOSSEXUALIDADE é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse
sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.

Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça
referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse
comportamento ainda é chamado de antinatural.

Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus)
criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento
que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).

Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal
entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a
boca para comer e a língua para articular palavras?

Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada
em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido
descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis,
pássaros e mamíferos.

Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem
interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente
terminam em orgasmo e ejaculação.

Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71
espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias,
coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes,
carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.

A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na
literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no “Journal of Animal
Behaviour” um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual
descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal
entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações
semelhantes.

Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os
primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais
próximos.

Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é
ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de
pesquisas.

Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez
imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer
dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou
sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.

Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a
maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os
outros.

A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar
nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável
como a água que despenca da cachoeira.

Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável
quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido
de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.

Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no
âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao
contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a
sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade.

Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os
mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai
contra os princípios mais elementares de justiça social.

Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito
de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a
ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos.

Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias
sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é
apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o
apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem
viveu por 30 anos?

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Dartanhã
Cel: (92) 9113-3874

Há homens que lutam um dia e são bons; Há outros que lutam um ano e são
melhores. Há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda
a vida,e estes são imprescindíveis."
( BERTOLD BRECHT )

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